Manaus passa o fim de semana sob fumaça densa, com ar classificado como perigoso e chuva como única esperança

Quem acordou em Manaus no sábado (17) encontrou uma cidade sem horizonte. Por volta das 6h, o índice de poluição do ar da capital amazonense chegou a 441 pontos, o pior entre as capitais brasileiras naquele momento, de acordo com a plataforma internacional IQAir. O domingo (18) começou um pouco melhor, mas ainda ruim: às 9h30, a concentração de partículas finas estava em 94,4 microgramas por metro cúbico de ar, nível que a Defesa Civil municipal classifica como "muito ruim". O aviso valeu até as 15h.
Os números ajudam a dimensionar o que muita gente descreveu nas redes sociais como o pior episódio já vivido na cidade. Na manhã de sábado, a concentração de partículas finas, as chamadas PM2.5, chegou a 295,9 microgramas por metro cúbico. A Organização Mundial da Saúde recomenda 5 microgramas como referência para a média anual, de modo que o valor registrado foi 59,2 vezes maior. Um ponto de medição do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental, da Universidade do Estado do Amazonas, marcou 457,7 no bairro Coroado por volta das 6h55.
PM2.5 designa partículas com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro, tão pequenas que atravessam as defesas naturais do nariz e da garganta e chegam aos pulmões. É esse material que dá à fumaça de queimada o poder de irritar os olhos, provocar tosse e agravar quadros de asma e outras doenças respiratórias. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, os atendimentos por doenças respiratórias cresceram 10,5% entre agosto e setembro.
Por volta das 8h13 de sábado, a Defesa Civil do Estado emitiu alerta de risco severo para a qualidade do ar e recomendou o uso de máscara fora de casa. A prefeitura reforçou o pedido de que os moradores bebam bastante água, mantenham portas e janelas fechadas, umidifiquem os ambientes e evitem atividade física ao ar livre. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias devem reduzir ao máximo a exposição. Em emergências, o telefone é o 199 (Defesa Civil) ou o 193 (Corpo de Bombeiros).
A fumaça atrapalhou também quem tenta apagá-la. Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a baixa visibilidade levou à suspensão temporária das operações aéreas de combate a incêndios na tarde de sábado. As aeronaves voltaram a operar horas depois, quando o tempo abriu um pouco. O episódio mostra o ciclo vicioso da situação: quanto mais fumaça, mais difícil combater o fogo que a produz.
De onde vem tudo isso? A pergunta não tem resposta simples. A meteorologista Andrea Ramos, que analisou mapas de concentração de poluentes, observou que as maiores concentrações aparecem nas zonas Sul e Leste de Manaus, mas disse que não é possível apontar com precisão as fontes emissoras. Ela lembrou que a fumaça pode vir de queimadas em outras regiões e também de ações humanas na própria cidade. No sábado, moradores registraram um incêndio no lixão de Manacapuru, na Região Metropolitana. Imagens de satélite, segundo ela, colocam Manaus numa faixa classificada como perigosa, e a pior situação seria a de Santarém, no oeste do Pará.
Para este domingo e a segunda-feira (19), a previsão é de chuva. A própria meteorologista, porém, recomendou cautela: a precipitação ajuda a remover parte dos poluentes da atmosfera, mas isso não elimina o problema nem garante que o ar fique bom. Ela citou o caso de Tefé, onde a chuva faz uma limpeza parcial e a qualidade do ar continua ruim.
A crise já dura mais de uma semana e afetou a rotina escolar. As aulas presenciais da rede municipal ficaram suspensas durante a semana passada. No plano federal, o governo autorizou o repasse de R$ 14,3 milhões para ações no Amazonas. A prefeitura lembrou ainda que provocar queimada é crime e pediu que denúncias sejam feitas pelo telefone 153 ou pelo site da Secretaria Municipal de Limpeza.
Nesta segunda-feira, a política deve se somar ao cenário. O candidato Flávio Bolsonaro (PL) tem agenda prevista em Manaus à noite, depois de passar por Marabá, no Pará, pela manhã. Segundo a programação divulgada, apoiadores do presidente Lula também se reuniram neste domingo, às 16h, no Parque dos Gigantes, na Zona Leste, bairro que está entre os mais afetados pela fumaça.
Quem mora na cidade sabe que o ar é o assunto do momento. Os dados disponíveis mostram um agravamento no sábado, uma melhora parcial no domingo e uma dúvida central: a chuva vai trazer alívio duradouro ou apenas uma trégua? A resposta depende do comportamento dos focos de incêndio nos próximos dias, que as autoridades acompanham. Enquanto isso, as orientações de proteção continuam valendo para todos os bairros.